Diálise contínua: dicas para garantir uma maior patência do filtro de diálise

Prescrevendo diálise peritoneal incremental

Dez tópicos que todo nefrologista deveria saber sobre cuidados paliativos

Quando solicitar confecção de FAV no paciente com DRC conservador?

Como programar a diálise antes do procedimento cirúrgico?

Há benefícios em realizar exercícios durante as sessões de hemodiálise?

Diálise contínua: Indicações e vantagens
A terapia de suporte renal contínuo (TSRC) é uma ferramenta vital no manejo de pacientes críticos com injúria renal aguda. No entanto, a coagulação precoce do sistema, levando à falência do filtro, permanece um desafio significativo. Além de interromper a terapia, a perda do circuito pode resultar em perda sanguínea do paciente e aumento dos custos hospitalares. Este artigo aborda os principais fatores associados à vida curta do filtro e oferece dicas práticas para garantir a patência do filtro e a eficiência da terapia.
Principais fatores que estão associados à vida curta do filtro
1-Anticoagulação inadequada
A anticoagulação é fundamental para garantir a patência do circuito extracorpóreo. O KDIGO recomenda a anticoagulação regional com citrato (ARC) como método preferencial na TSRC, devido à sua eficácia comprovada e segurança. A ARC promove anticoagulação do sistema sem aumentar o risco de sangramento, estando associada a menos episódios hemorrágicos e necessidade de transfusões em comparação com a heparina, além de prolongar a patência do circuito.
1.1-Como é realizada a ARC?
Almeja-se uma dose de 3 a 5 mmol de citrato por litro de sangue, mantendo o cálcio iônico no sangue dentro do circuito abaixo de 0,3 - 0,4 mmol/L, evitando a ativação das cascatas de coagulação intrínseca ou extrínseca. O monitoramento do cálcio ionizado pós-filtro é essencial para garantir a eficácia da anticoagulação.
Na maioria dos protocolos institucionais, inicia-se a ARC com 3 mmol de citrato por litro de sangue, ajustando-se conforme os valores de cálcio ionizado pós-filtro. Ajustes na dose inicial podem ser necessários de acordo com o risco de acúmulo ou intoxicação por citrato e a patência de filtros anteriores. Mesmo em condições de risco, com monitorização adequada e ajustes apropriados, as contraindicações absolutas ao uso da ARC são raras ou, como defendidas por alguns, inexistentes.
1.2-Quais são as condições de risco para acúmulo/ intoxicação por citrato?
Parte do complexo Ca-Citrato é eliminada no efluente (cerca de 60%, dependendo da dose de diálise), enquanto o restante retorna ao paciente. Esse complexo é metabolizado principalmente no fígado, mas também no músculo esquelético e no córtex renal, onde o citrato é convertido em três moléculas de bicarbonato. Pacientes com disfunção hepática ou altamente desnutridos/sarcopênicos possuem risco aumentado de acúmulo de citrato.
Quais são os sinais de acúmulo do citrato?
* Aumento progressivo do volume de infusão do cálcio: O cálcio é quelado progressivamente pelo citrato, necessitando de doses crescentes de cálcio para manter a normocalcemia.
* Aumento da relação Cálcio Total/ Cálcio ionizado: Valores acima de 2,5 podem indicar acúmulo de citrato, pois os níveis de cálcio ionizado diminuem devido à quelação.
Nessas situações, deve-se adotar estratégias para reduzir a dose de citrato ofertada ou até interromper temporariamente o uso de citrato. Nos pacientes que já possuem alto risco de acúmulo do citrato, medidas para reduzir a dose de citrato ofertada já pode ser uma medida na prescrição inicial da terapia.
Quais estratégias podem ser essas?
1) Realizar a terapia com menores fluxos de sangue: Como a dose total de citrato depende do fluxo sanguíneo, utilizar fluxos menores resulta em menor dose de citrato.
2) Realizar a terapia com doses de efluente maiores: Doses maiores de diálise removem mais citrato, reduzindo a quantidade devolvida ao paciente.
3) Almejar um cálcio ionizado pós-capilar mais próximo a 0,3 mmol/L: Almejar níveis eficientes, porém não tão baixos, de cálcio ionizado pós-filtro pode balancear a eficácia anticoagulante e o risco de acúmulo de citrato.
Importante reforçar que sangramentos e plaquetopenia não são consideradas contraindicações para o uso de citrato. Além disso, não existem níveis de transaminases, bilirrubinas, lactato e INR que constituam contraindicações absolutas ao uso da ARC, mas simbolizam, na verdade, marcadores de maior risco de acúmulo ou intoxicação. Nessas situações, a ARC pode ser utilizada desde que adotadas estratégias como as descritas acima para reduzir carga de citrato entregue ao paciente e a monitorização adequada seja realizada por profissionais experientes.
2-Acesso vascular disfuncionante
Outro aspecto que deve ser avaliado quando há perdas do circuito é a qualidade do cateter. As pressões venosas e arteriais devem sempre ser avaliadas pelo médico nas visitas à beira leito, pois podem ser o primeiro sinal de disfunção do acesso. Exemplo prático: perdas de circuito precedidas por pressões venosas muito elevadas podem significar uma via venosa ruim ou kicking temporário por mal posicionamento do paciente não identificado pela equipe. Quanto a esse ponto, o KDIGO traz recomendações sobre o sítio mais adequado para reduzir disfunção do acesso: preferencialmente veia jugular direita, seguida de veias femorais e jugular esquerda. Além disso, deve-se optar por cateteres mais calibrosos, de acordo com a disponibilidade de cada serviço.
3-Alta taxa fração de filtração
A modalidade de TSRC prescrita influencia no risco de coagulação no circuito. A CVVHD, devido ao fluxo em contracorrente e menor pressão sobre a membrana, apresenta menor risco de coagulação em comparação com a CVVH. Na CVVH, a reposição pré-filtro diminui a hemoconcentração e o risco de coagulação em relação à reposição pós-filtro. No caso da CVVH pós-capilar deve-se ter atenção à fração de filtração, que se maior que 20 - 25% o risco de coagulação é acentuado pela hemoconcentração do sangue no interior do capilar (FF = Efluente [UF + FR] / FS x [1 - Ht]).
Conclusão
Para pacientes com dificuldade na patência do filtro durante a TSRC, é crucial ajustar estes três fatores: otimizar a anticoagulação, preferencialmente com ARC; garantir um acesso vascular adequado e escolher a modalidade e/ou monitorar a fração de filtração que visem minimizar o risco de coagulação no circuito considerando as particularidades de cada paciente. Ao implementar esses ajustes, prolongamos a vida útil do filtro, garantimos a eficiência do tratamento e melhoramos os resultados clínicos.